01 setembro 2009

Praia para quatro (um conto erótico)

Parece que somos nós os quatro, pensaram os dois casais naquela praia isolada do sudoeste alentejano. Descontentes, mas resignados com o que o destino tinha preparado e eles não podiam mudar, estenderam-se nas toalhas já esticadas, cada um no seu canto da pequena praia. Ambos os casais tinham vindo em busca de uma praia isolada, onde pudessem fazer o que quisessem e dar largas à imaginação, sem olhares curiosos e mesmo recriminatórios de outros. Agora, com a presença do outro casal ali perto, teriam forçosamente que impor limites à dita imaginação, muito mais apertados que os que os rochedos da praia já convenientemente lhe imputava. Cada um dos casais ignorava o que o outro pensava e dizia, assim o impunha a distância de uns trinta metros que os separava na praia, mas em boa verdade podemos dizer que ambos os casais pensavam no mesmo, aliás, para facilitar a narrativa, nem nos preocuparemos em registar em simultâneo os pensamentos dos dois casais, bastará registar os pensamentos de um deles e automaticamente se saberá que era assim que o outro pensava, peço desculpa pelo estilo de escrita mas ainda estou imbuído do espírito do saramago, faça-se jus ao seu nome, em minúsculas como ele próprio quereria, o facto é que acabei agora a viagem do elefante e, embora o elefante tenha chegado ao seu destino, eu sinto-me ainda com vontade de continuar mais um bocado. Onde íamos nós, nos pensamentos dos casais, no assunto do dia, no tema em questão, não é difícil imaginá-lo tendo em conta a situação em que se encontravam, o tema era sexo, sexo puro, duro, desenfreado, e livre como não podia deixar de ser. Basta dizer que orgasmos já tinham havido três, dois deles fruto de uma breve incursão à pequena mas densa floresta atrás dos rochedos, o terceiro mesmo ali na praia, de barriga para baixo, pelo simples roçar vagaroso e subreptício do corpo contra a areia através da toalha, algo que só pode ser dado às mulheres, que podem ter orgasmos com essa facilidade, algo verdadeiramente assustador. Mas não seria por isso que a vontade tinha passado, pelo contrário aliás, a presença do outro casal tornava tudo ainda mais excitante. Ainda por cima tinham-se conhecido há pouco, um deles tinha perguntado se aquele caminho dava para uma outra praia e o outro dito que não, este último estaria agora arrependido do que disse, ou se calhar talvez não, mas poderia ter dito que sim, e o outro teria ido por esse caminho, e ficariam talvez em praias distintas. Independentemente de prováveis ou improváveis arrependimentos, naqueles poucos segundos tinham tido a oportunidade de se olhar nos olhos, de conversarem, de se admirarem e concluirem que até se agradavam uns aos outros. Agora que o destino tinha colocado estes quatro sozinhos, por assim dizer, no mesmo barco, não seria falacioso dizer que os dois casais já se desejavam mutuamente, facto comprovado pelos relances de olhares que deitavam uns aos outros, olhares que não conseguiam evitar, mas que eram breves por força do respeito, e terminavam cedo, abruptamente, quando encontravam os olhares cruzados do outro. Imaginavam como poderiam abordar o assunto, qual deles devia ir ter com o outro, ou se os dois, o que deviam dizer, como poderia o outro reagir, podíamos simplesmente ir lá e perguntar se querem juntar-se a nós, para conversarmos um pouco, E com que objectivo, diriam os outros, não será demais recordar que cada um dos casais ignora que o outro casal pensa exactamente o mesmo, essa faculdade cabe-nos apenas a nós, espectadores, omniscientes por força do acaso, porque se assim não fosse, julgo que o problema estaria resolvido, bastaria os dois casais caminharem até meio da distância que os separa e decidissem entre si o como e o quando, já que o quê e o porquê estariam já implícitos. Agora que estávamos a pensar nisso, nem de propósito, um dos casais levantou-se, caminha para o mar. Parecem levar vantagem, ela em topless, ele obviamente também, em pé juntos correndo e saltando na rebentação das ondas, podendo ser observados em todo o seu esplendor. Não se apercebem que essa vantagem é efémera, porquanto o outro casal se prepara para empatar o jogo, quando a rapariga retira a parte de baixo do biquíni, ficando assim, não só topless, mas também bottomless, por acaso tem piada o neologismo, apesar de lógico pode levar a segundas interpretações, felizmente não teremos de pensar muito nisso, pois dada a raridade do evento não me parece que o termo vá pegar. Enquanto uns caminham pela praia e outros ficam deitados na areia, pensa-se em sexo em conjunto na areia da praia, com os pares trocados mas vendo-se uns aos outros, aprendendo e apurando as técnicas e posições, tirando prazer não só da interacção com o elemento do outro casal, mas também da visão da sua cara-metade a fervilhar de prazer, como se de um filme, escusamos de dizer de que tipo, se tratasse. Ou então algo mais comedido, para não haver constrangimento, os pares separados um do outro, mas dos dois lados da mesma rocha, privando-se assim do estímulo visual mas permitindo-se ouvir os gemidos de prazer dos outros, competindo para atingir o orgasmo em primeiro lugar, ou, quem sabe, para o fazer durar o mais possível, afinal parece que me enganei, peço desculpa mais uma vez, não é verdade que tenham sido impostos limites à imaginação, como se vê esta é de facto ilimitada e até mesmo rebelde por definição, o que pode ter sido limitada, quando muito, é a possibilidade de pôr os pensamentos em prática ou, para usar uma expressão mais corriqueira, para tornar os sonhos em realidade. Assim vão os pensamentos destas quatro pessoas, mas os pensamentos não correspondem aos actos, agora mesmo o casal que estava na água volta para as suas toalhas e o que estava nas toalhas dirige-se para o mar, ainda sem top mas já com bottom. Os olhares, esses continuam, furtivos mas inevitáveis, a admiração e o desejo crescem, mas nenhum deles se atreve a dar o primeiro passo, a situação seria muito estranha, a possibilidade de rejeição é grande e o medo ainda maior. O segundo casal voltou também para terra, resignados por não acharem mais nada que possam fazer os quatro tentam distrair-se, uns lêem, outros conversam, outros tentam dormir. Os olhares são um vício, tentam combatê-los mas não conseguem, volta e meia já estão a olhar para eles outra vez, e desta vez não fogem, ficam a admirar-se uns aos outros, até que o outro olha, só então desviam a cara, e então é a vez do outro olhar para eles estarrecido, como se do jogo da apanhada se tratasse, apanhei-te, agora és tu a apanhar-me a mim. Algo se mexe entre as rochas, e isso não é bom sinal. Os olhares dos quatro mudam, nota-se um travo de desespero, de desilusão, porque de repente se aperceberam que já não são quatro, por entre as rochas aparece o quinto elemento da praia, depois o sexto, depois o sétimo, depois o oitavo. Não estamos sós, pensam os quatro em uníssono, Vêm para ficar. Dois adultos, duas crianças, duas canas de pesca. Que raio vêm para aqui fazer, há que dizê-lo com frontalidade, porque raio escolhe uma família vir de propósito para uma praia deserta, onde era suposto dar largas à imaginação, se afinal vêm fazer o mesmo que fariam em qualquer praia. Devia haver uma lei que só deixasse vir para praias desertas quem viesse fazer coisas que só se podem fazer em praias desertas. Assim como obrigar toda a gente a tirar a roupa nas praias naturistas. Como é injusto, este mundo. Agora paciência, não há nada a fazer, até porque entretanto chegou mais gente, a praia que era deserta está agora cheia. Um dos casais, dos originais obviamente, levantou-se e prepara-se para ir dar uma volta, desanuviar, sair do meio daquela gente toda. Surpreende-se ao ver que o outro casal já fez o mesmo, está dois passos à frente dele, surpreende-os a eles mas não a nós, que sabemos que os dois casais pensam o mesmo. Vão os quatro dar uma volta. Até podiam ir todos juntos, a ideia passa-lhes pela cabeça, mas já é tarde, agora além de não se conseguirem enfrentar correm o risco de serem apanhados por alguém, agora que a maldita praia está cheia. Por isso, ainda que juntos no pensamento, vão dois para cada lado. O tempo passa, não sabemos quanto tempo porque numa praia deserta não há relógios, mas vemo-lo passar porque o sol mexe-se, galileu disse que não, que quem se mexe é a terra, mas einstein voltou a dizer que sim, andar o sol à nossa volta ou nós à volta dele é tudo a mesma coisa. Os casais já voltaram e dirigem-se para as toalhas, não sabemos o que fizeram entretanto, parece que não somos tão omniscientes assim, o acaso deu-nos a faculdade de ouvir os pensamentos destes quatro, ou pelo menos de dois deles para não ouvir em duplicado, mas não foi benevolente a ponto de nos deixar sair da praia. A praia está agora cheia de gente, mas os casais só têm olhos um para o outro, para eles mais ninguém interessa. Tristes e resignados, admiram-se ainda mais porque sabem que o fim está próximo e não querem perder mais um segundo da imagem do outro. Num dos olhares encontram-se, mas já não querem desviar a cara, ficam assim durante alguns segundos como se comunicassem com os olhos, com tal intensidade que parece que gritam, Era a vocês que nós queríamos, e tanto gritaram que o outro parece que ouviu, de repente aperceberam-se, Eles também queriam, eles queriam o mesmo que nós, a notícia súbita deixou-os aturdidos, por segundos faltou-lhes o ar, sentiram-se tontos. Viraram-se para os parceiros para lhes contar mas não conseguiram articular palavra, e então os parceiros viraram-se para eles e disseram, Estou aborrecido, vamos embora, e assim se levantaram, talvez não ao mesmo tempo mas na verdade não conseguimos distinguir quem foi primeiro. No caminho para a saída encontraram-se, sorriram mas não disseram nada.

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