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17 outubro 2012

Escupimos en su alimento

Já vai quase um ano desde que cheguei à Alemanha. Por esta altura já estou habituado ao modo de vida, a linguagem vai ficando cada vez melhor, os hábitos dos alemães já deixaram de ser estranhos para mim. No entanto há ainda uma coisa, uma pequena coisa à qual ainda não me consegui habituar. O conceito da gorjeta.

Como português que sou, não estou habituado a dar gorjeta. Com a excepção dos restaurantes finos, nós quase nunca pagamos mais do que o que vem na conta, e quando o fazemos, é só para dar uns trocos ou arredondar a conta. Se pagarmos com cartão, é quase certo que não iremos deixar gorjeta. Em cafés e bares não nos passaria pela cabeça dar gorjeta ao empregado. E porque o haveríamos de fazer? Nós já estamos a pagar pelo serviço completo. Assumimos que os preços da comida e bebidas que vêm na conta já foram aumentados para ter em conta o serviço. Porque esperariam eles que pagássemos ainda mais que isso?

Bem, as coisas são diferentes aqui. Aparentemente, o serviço não está incluído na conta. Por isso se se sentarem à mesa e alguém vier servi-los, devem dar gorjeta. Devem. É que, o meu problema não é o facto de quererem deixar gorjeta, aí tudo bem, acho bem que o façam se se sentirem extremamente satisfeitos com a comida e o serviço e queiram recompensá-los dessa forma. O problema é que aqui eles esperam que nós deixemos gorjeta em qualquer das situações, e provavelmente levarão a mal se não o fizermos. Os alemães dir-vos-ão as três razões pelas quais devem dar gorgeta aos empregados e empregadas de mesa:

  • Os empregados de mesa ganham apenas o que lhes dão em gorjetas (ou quase) - OK mas, porque é que isso é problema meu? Porque é que eles não podem subir os preços para incluir o serviço, como nós fazemos? Ou então porque é que eles não incluem a gorgeta na conta? (os italianos fazem isto, chamam-lhe o coperto.) Ao fazerem o que fazem, os donos dos bares e restaurantes estão simplesmente a dizer-nos que não é problema deles pagar aos empregados, é nosso. Se nós não dermos gorjeta, eles não recebem, e nós ficamos com a consciência pesada. Além disso, estão também a baixar artificialmente os preços porque acabamos por pagar sempre mais do que o que está na conta (por exemplo, a conta diz 25€ mas acabamos por pagar 28€).
  • A gorjeta é uma forma de avaliar o serviço - mas será assim um trabalho tão difícil? É levar comida e bebidas às pessoas! Claro que a grande maioria dos empregados fará um trabalho aceitável. Sim, alguns poderão ter um desempenho excelente e merecer uma gorjeta maior, mas eu não tenho nada contra isso como já referi. Por outro lado, se o serviço foi assim tão terrível, não seria melhor dizer-lhes o que aconteceu ou fazer uma reclamação por escrito em vez de simplesmente ir-se embora sem deixar gorjeta?
  • Se nunca derem gorjeta, eles começam a cuspir na vossa comida - ou a fazer qualquer outra coisa desagradável com ela. Esta faz-me logo lembrar os arrumadores de carro em Portugal, que vos furam o pneu do carro se não lhes derem a moedinha. No fundo é uma coisa tipo Mafia, em que têm de lhes pagar para eles vos protegerem deles próprios. E eu tenho de os tratar como mafiosos porque me trazem comida e bebidas?! Está tudo doido?
Bem, pelo menos não estou nem perto dos Estados Unidos, onde a gorjeta é praticamente obrigatória e é quase 20% da conta. E aqueles sítios onde a gorjeta é incluída mas eles esperam que deixemos uma gorjeta adicional além dessa? O Sr. Larry David saberá explicar melhor que eu:


Sabem, eu pessoalmente também protesto contra a matemática. Os alemães têm um sistema, é esperado que se dê de gorjeta o equivalente a 10% da conta. O empregado dir-vos-á quanto é, adicionam 10% a isso, arredondam o resultado para cima e respondem ao empregado dizendo-lhe quanto é que pretendem pagar. Um amigo meu passa quase 10 segundos com as notas na mão a fazer as contas mentalmente para dizer o resultado ao empregado de mesa. Para que é que é isto? Se eles esperam sempre que paguemos 10% a mais que a conta, porque é que não incluem na conta esses 10%? Para mim é tão simples como isso: eles dizem-me quanto é que eu devo pagar, e é isso que eu pago.

Bem, de qualquer forma, é a sociedade deles, as regras deles, e quando vivemos em sociedade não podemos simplesmente inventar as nossas próprias regras e esperar que elas sejam facilmente aceites pelos outros. Ou nos regemos pelas regras deles ou vamos passar um mau bocado. Durante uns tempos saltei grande parte das gorjetas por causa do meu problema com os números alemães (como nunca chegava a perceber ao certo quanto era a conta, quando chegava a parte de eu lhes dizer quanto é que eu queria pagar simplesmente ficava calado e entregava o dinheiro, o que para eles quer dizer que eu não quero dar gorjeta), mas comecei a levar a coisa a sério depois de um primeiro encontro correr terrivelmente mal porque eu não dei gorjeta à empregada. A rapariga do encontro ficou chocada com a minha falta de educação, deu-me um sermão sobre a maneira de se dar gorjeta, não aceitou nenhuma das minhas desculpas e desde então nunca mais falou comigo.

Portanto agora porto-me bem mas estou sempre a pensar se devo dar gorjeta a esta ou àquela pessoa. Por exemplo, devo dar gorjeta à empregada que me traz apenas café? A taxistas? À cabeleireira que me corta o cabelo? E porque é que não dou gorjeta à caixa do supermercado? Ao carteiro por me entregar aquela encomenda que eu tanto esperava? Ao condutor do autocarro por me transportar? À menina da loja que me ajuda a escolher a roupa? Ao senhor do quiosque por me vender o jornal? Ao rapaz que me põe gasolina no carro na estação de serviço? Porque é que dou gorjeta ao empregado de mesa mas não ao cozinheiro? Raios, porque é que eu não recebo uma gorjeta pelo trabalho que faço? Se vamos começar a distribuir gorjetas, por que raio são os empregados de mesa os únicos que as merecem?

P.S.: O título deste artigo é uma referência ao filme Anchorman (em Portugal: "O Repórter: A Lenda de Ron Burgundy"). A meio deste filme aparece um restaurante mexicano, chamado "Escupimos em su alimento" segundo o letreiro. Acho que não preciso de traduzir para português, pois não?

(english version)

23 agosto 2011

Pois claro que estás!

Acham que isto é uma maneira parva de atender o telefone?


Na verdade, se estivessem cá os Castigadores da Parvoíce, metade de Portugal era dizimada. Eu incluído. Tudo isto por causa dessa mania irritante de, ao atender o telefone, perguntarmos ao outro se estamos.

Se não perceberam já lá vamos. Um pouco de história, primeiro. A expressão mais correcta, em termos convencionais, a usar para atender o telefone é efectivamente "Alô". Vem do inglês "Hello", antigamente "Hallo", foi o próprio Thomas Edison que a sugeriu como saudação ao atender o telefone, e quer dizer, literalmente, "Olá". Dizer "Olá" é uma óptima forma de atender o telefone, não acham? Para os mais distraídos, não é a Thomas Edison que se atribui a invenção do telefone, é a Alexander Graham Bell, só que este sugeriu que se dissesse "Ahoy hoy!" Felizmente, nessa altura, os Castigadores da Parvoíce estavam lá.

Grande parte dos brasileiros dizem "alô". Alguns, dependendo do sotaque, acabam por dizer "alôe". E se for a Vera a ligar, dizem "alôe Vera". (ok, foi a piada possível, foi seca como o deserto do Sahara mas tinha que ser). E se a memória não me engana, houve um tempo em que também os portugueses atendiam o telefone com "alô". Eu tenho uma vaga ideia de o ter feito nos meus tempos de miúdo.

E depois Portugal inteiro começou a mudar, primeiro de "Alô" para "Está lá?" ou "Está?", e depois de "Está lá?" para "Estou sim?", "Estou?" e finalmente "Tou?". Neste momento, "Tou?" é provavelmente a forma de atender o telefone mais usada em Portugal.

Eu fui acompanhando todas as mudanças e, confesso, sempre as aceitei com naturalidade, nunca pensei em questioná-las, sempre as achei uma forma válida de atender o telefone como todas as outras. Afinal, se toda a gente diz, não deve estar mal de todo, não é? Até que uma amiga brasileira me viu a atender o telefone e disse "Que é essa merda de estou? Isso quer dizer o quê? Não sabe dizer alô?" E nessa altura tive uma epifania. Nessa altura percebi tudo. "Ééé pááá, esta maneira de atender o telefone é muita parva..."

É que já o "Está lá?" era parvo o suficiente. Quer dizer, se a pessoa atende o telefone, é claro que está lá! Onde é que havia de estar? Se estivesse cá, não era preciso telefonar! A minha teoria é que o "Estou, sim" era uma resposta ao "Está lá?", que no fundo era uma pergunta na categoria das perguntas que têm sempre a mesma resposta. A certa altura as pessoas começaram a dizer "Estou sim" logo ao atenderem o telefone, antes que tivessem de ouvir o "Está lá?" do outro lado que já começava a ser irritante. Digamos que era uma resposta preventiva. Por isso o "Estou sim", ou o "Estou", ditos em tom de afirmação, até fazem sentido. Como quem atende o telefone e diz "Estou aqui, fala comigo". De qualquer forma, não deixa de ser um pleonasmo, já que se eu vou atender o telefone é porque estou! Onde é que havia de estar?

Mas o meu problema com o "Estou" não é bem esse, é a entoação que é dada à palavra, que acaba por converter uma afirmação numa pergunta. Olhem bem para vocês da próxima vez que atenderem o telefone e digam-me se estão a dizer que estão ou a perguntar se estão. "Estou?", "Tou?" e "Estou sim?", ditos em tons de pergunta, há que dar a mão à palmatória, são parvos até dizer chega. Imagino-me a telefonar a alguém e responderem-me com "Estou?". Estão a perguntar-me a mim se estão? Como é que querem que eu saiba? Eles não sabem se estão? Ainda pior é perguntarem se "estão sim". "Estou sim?" "Não, estás talvez."

Será que há assim tantos portugueses com crise de identidade? Que não sabem onde estão, se estão ou se não estão, se estão sim ou se estão não? Pelo andar da carruagem, pela evolução que passou do "Está lá" para o "Estou, sim", não há-de tardar muito até que comecemos a atender o telefone a gritar "Pois claro que estás!".

Portanto, neste ponto tenho que admitir que os brasileiros levaram a sua avante. Mas os brasileiros não se ficam a rir, não. Que é que é isso de dizer "Pronto!" a atender o telefone? Pronto para quê, para sair? Do tipo, já se vestiram e puseram a maquilhagem? Eles calavam-se mas é caladinhos, se soubessem que em Portugal Pronto também é o nome de um produto para limpar o pó. Ah pois é!

23 abril 2011

O mistério da ressurreição de Cristo ou como na Galileia não sabiam fazer contas

Só porque é Páscoa e todas as Páscoas me lembro disto, e porque já começa a ser um pouquinho irritante.

Tudo porque há dois mil anos que dizem que Jesus, o Cristo (Cristo que não é nome próprio, quer dizer O Crismado, ou O Untado), ressuscitou no terceiro dia depois de morrer. E porque há dois mil anos se celebra a morte de Cristo a uma sexta-feira e sua ressurreição a um domingo. Hein?!!!

De sexta a sábado é um dia, de sábado a domingo é mais um dia. Um dia mais um dia são dois dias. Onde está o terceiro dia? Afinal Jesus ressuscitou numa segunda-feira? (coitado...)

Estou contando mal, dizem vocês. Sexta-feira é o primeiro dia, sábado é o segundo dia, e domingo é o terceiro dia. Espera, mas no dia em que ele morre já passou um dia desde que ele morreu? Até fazia sentido se ele tivesse morrido logo na meia-noite de sexta, e ressuscitado às 23:59:59 de domingo. Aí fazia três dias completos. Mas a hora oficial da morte (segundo vi por aí) é às três da tarde. Portanto o primeiro dia já começou e ele ainda não tinha nem morrido?

- Meus apóstolos, esta é nossa última ceia, e está quase chegando a meia-noite. Saibam que morrerei na cruz amanhã e ressuscitarei no terceiro dia.
- Terceiro dia a contar desde a sua morte, Senhor?
- Não, Judas! Cala a boca! Terceiro dia a partir de... agora!
- Que bom, Senhor, assim calha no domingo!
- Cala a boca Judas!!! Quem chamou este cara para ser apóstolo? Puxa vida, que cara mais chato!

OK. Pensando bem, quando eu entro para a escola vou diretamente para o primeiro ano, quando entro para o terceiro ano só completei dois anos... é possível que Jesus tenha morrido só durante dois dias e mesmo assim ressuscitado no terceiro...

Mas! De todos os documentos possíveis é a própria Bíblia que me vem dar razão. Não vou transcrever a passagem completa mas deve ser de Mateus x, versículo y. Diz que Jesus disse a não-sei-quem que sua morte demoraria três dias e três noites, e depois então ressuscitaria. Ahá! Três noites! De sexta a domingo não são três noites, são duas noites! Tenho razão ou não tenho, porra!

Portanto, ou na Galileia diziam que um mais um é igual a três, ou o verdadeiro mistério da ressureição de Cristo é saber como ele sumiu com um dia inteirinho de sua morte.

15 fevereiro 2011

Posso fazer uma pergunta? Posso?

Outra coisa que é particularmente irritante é quando alguém chega ao pé de nós e diz "Posso fazer-lhe uma pergunta?". Aliás, há várias correntes deste tipo de pergunta: "Pode fazer-me um favor?", "Pode tirar-me uma dúvida?", "Posso colocar-lhe uma questão?", "Pode dar-me uma informação?"

Há que esclarecer que há também duas versões desta questão, uma menos irritante e outra mais irritante. A menos irritante é quando dizem "Posso fazer-lhe uma pergunta?" e fazem a pergunta logo a seguir, portanto a primeira é assim uma espécie de introdução para a segunda. Mas irrita mais quando dizem "Posso fazer-lhe uma pergunta?" e ficam à espera que eu responda para me fazerem a pergunta!

Obviamente que tudo se passa no campo da boa educação e não é suposto irritar só por ser educado. Mas quando ouvimos isto vezes sem conta, e dito pelas mesmas pessoas, começa a irritar um bocadinho. Eu pessoalmente sou uma pessoa mais prática, se me fazem uma pergunta eu gosto de responder o mais rapidamente possível, mas para isso tenho que saber o que me estão a perguntar! Para dar um exemplo, um dia uma mulher abordou-me na rua e fez-me esta pergunta:

- Olhe, faz-me um favor? O senhor é capaz de dar-me uma informação? O senhor sabe-me dizer onde fica o grpgdfglt?

(naturalmente, eu, que tenho um problema de audição selectiva, acabei por não perceber o fim da frase, que era o mais importante e lá tive de pedir à senhora para repetir. Felizmente, não repetiu tudo desde o início).

Notem que em nenhuma das perguntas que fez ela perguntou o que queria realmente saber. As respostas podiam ter sido simplesmente "Faço", "Sou" e "Sei", e a mulher ficava na mesma. E a questão é precisamente essa: quando alguém pergunta "Posso fazer-lhe uma pergunta?", o que é que suposto respondermos?

Eu diria que em quase 100% dos casos temos que responder que sim. Alguma vez responderíamos "não"? Se por acaso respondêssemos "não" acontecia uma de três coisas:
  1. Diziam "Ah ah ah, brincalhão" e faziam a pergunta na mesma;
  2. Perguntavam "tem a certeza?", diziam "olhe que preciso mesmo de saber", e insistiam, insistiam até eu finalmente dizer que sim;
  3. Diziam "Pronto, está bem... idiota..." e iam-se embora amuados e a pensar que eu era um antipático e mal-educado.
Se eles sabem que eu tenho de responder que sim, porque é que perguntam se podem perguntar? Porque é que não perguntam logo aquilo que precisam de saber? Têm medo de mim, que lhes rosne que não quero responder a pergunta nenhuma ou que lhes diga que estão a fazer perguntas idiotas? Mas claro que só vou saber se a pergunta é idiota depois de a fazerem. Acham que estou muito ocupado e não me querem desconcentrar? Helloooo! É tarde demais, com o "Posso fazer-lhe uma pergunta?" já fiquei completamente desconcentrado!

Na verdade há uma razão para este tipo de perguntas que me assusta mais do que me irrita. Às vezes perguntam-me se me podem perguntar porque a pergunta propriamente dita é muito elaborada. Quando eu sei que é um "Posso fazer-lhe uma pergunta?" deste tipo, até tremo dos pés à cabeça.

- Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Podes, diz lá.
- Ora bom. Em 1987, eu e duas ucranianas estávamos numas termas e blah... blah... blah... depois blah... blah... portanto achas que devemos vender as 7 caixas ou vender só 5?

Enfim. De tanto responder "Sim", "Podes", "Força", "Diz lá", "Ya...", começo a pensar em respostas parvas para dar. Respostas como:

- Podes, mas é só uma.
- Vá lá, está bem, desta vez passa.
- É pá, vou ter de pensar no teu caso...
- Porquê?
- Não sei, pergunta à Gertrudes que ela deve saber.
- Não sei se podes, vou ter de confirmar com o meu supervisor.
- Poder podes, eu é que não sei se te vou responder...
- Podias, mas já fizeste, agora olha...

Portanto, o que eu quero dizer com isto é o seguinte: não percam tempo a perguntar se podem perguntar! Perguntem logo!

Em tempos inventei o pedido de licença mais educado e mais complicado de sempre. Era assim: "Olhe desculpe, não se importa, por obséquio, de me fazer o favor de me dar licença para eu passar?".

Podiam dizer isto. Ou então podem dizer "Com licença". É a mesma coisa, e evita prolegómenos como este:


Bónus. "Com licença"? "Com licença" quer dizer que se tem uma licença, não é? Então porque é que é equivalente a "Dá-me licença"? Se é "dá-me licença" está a pedir licença porque não a tem, mas se é "com licença" é porque já tem a licença... Também dá direito a respostas parvas, como "Onde é que está a licença?", "Deixe cá ver" e "Para ligeiros ou pesados?".

25 janeiro 2011

Nós somos os microondas que fazem "plim"

Normalmente gosto muito dos avanços na tecnologia, mas devo dizer que às vezes ela atrapalha mais do que ajuda. Na era do digital, as pessoas querem à força enfiar o digital em tudo o que podem. Devem achar mais moderno, mais vanguardista. Não se apercebem, no entanto, que é também menos prático.

Um dos exemplos é a substituição dos botões de rodar por botões de premir. No meu microondas, que é old-school, tenho dois botões de rodar, um para seleccionar a potência e outro para seleccionar o tempo. O botão do tempo vai rodando para trás à medida que este se esgota, para eu ter uma ideia do que tempo que falta. Simples.

Nos microondas de agora os dois botões de rodar foram substituídos por cerca de dezasseis botões de premir e um display electrónico. Peguem num microondas desses e ponham-no a trabalhar, não importa o tempo. Vá, ponham lá! Ah, têm de perceber primeiro qual é o botão de ligar, de entre os dezasseis botões que o microondas têm. Deve ser o botão com uma bola e um risco ao alto... ah, não, afinal é o que tem um triângulo invertido. Ah, e agora diz que não funciona porque esqueceram-se de digitar o tempo. Simples? Não me parece. Alguns destes microondas até têm um botão para abrir a porta! A sério?!! Uma simples pega na referida porta não era suficiente?

Mas o exemplo de que quero mesmo falar é o som que os microondas fazem. O microondas clássico tem uma pequena campainha que faz "plim" (ou "ding" em inglês - é engraçado como até as onomatopeias têm que ser traduzidas) quando o tempo acaba. E é assim que deve ser: "tchaaaaaaaaaaaaannnnnnnnn... plim!"

Mas os novos microondas da era digital acabaram com essa coisa retrógada que era a campainha e substituíram-na por, ideia das ideias! um besouro digital. Resultado: "tchaaaaaaaaaaaaannnnnnnnn... pi pi pi!". Pi pi pi?!! Mas o que é isto?

Sem ofensa aos homossexuais, mas "pi pi pi" parece-me um bocado amaricado... E não faz sentido nenhum. Um microondas que se preze tem que fazer "plim", é o "plim" que define a sua identidade. As histórias que se contam de coisas terríveis e até macabras acabam sempre com um "plim". "Pi pi pi" é o que faz qualquer aparelho electrónico hoje em dia, porque é que não podemos distinguir o microondas ao menos por isso?

Mas os fabulosos engenheiros do microondas digital foram ainda mais longe e adicionaram um "pi pi pi" ininterrupto, que NÃO SE CALA enquanto não for lá alguém abrir a porta. E isto é verdadeiramente irritante. O que é que tinham na cabeça? É assim tão urgente que se tenha de ir abrir a porta do microondas, quando este está parado? Será assim tão grave que alguém se esqueça da comida quente? A meu ver deviam apitar insistentemente em caso de avaria, ou de sobreaquecimento da comida, não quando o processo terminou e já está tudo bem!

Um microondas que deixa de fazer "plim" para passar a fazer "pi pi pi" é como Os Cavaleiros Que Dizem "Ni" de repente deixarem de dizer "Ni" e passarem a dizer "Ekke Ekke Ekke Ptang Zoo Boing"! Não é a mesma coisa, pois não?

03 dezembro 2010

Quem quer ser capa da TV Guia? (Parte 2... onde é que eu já li isto?)

Vejam aqui a primeira parte deste artigo.

Por dentro a TV Guia é uma revista cor-de-rosa igual às outras: apanham-se as celebridades em flagrante na praia, descobre-se quem é que namora ou que deixou de namorar, regista-se quem foi despedido, ou se zangou com alguém, ou está a morrer, porque tudo isso vende. Tem as crónicas de pessoas respeitadíssimas como Carlos Castro e Carlos Dias da Silva, que se entretêm a dizer mal dos vestidos das celebridades ou a comentar com língua viperina o último "escândalo". Os amigos do casal, aqueles personagens que se dispõem a contar os pormenores mais sórdidos da uma nova relação, e que muitas celebridades já vieram dizer que se realmente tivessem amigos destes não precisavam de inimigos, são uma constante.

No entanto, a TV Guia tem alguns pormenores interessantes. Primeiro pormenor: o Tony Carreira tem que aparecer na revista todas as semanas. E quando digo todas quero dizer mesmo todas. Não há uma só edição da revista em que não apareça uma história dele ou de algum elemento da família, e se houver, estou certo que o cantor ou o seu clube de fãs não deverá hesitar em processar a TV Guia. Com a Alexandra Lencastre é quase, quase a mesma coisa, mas neste ponto o Tony Carreira é especial. Cerca de 80% das edições de revista têm duas páginas dedicadas ao cantor, e há sempre matéria para escrever, nem que se vão buscar histórias de há 5 anos antes.

O segundo pormenor são as secções "Isto é Verdade?" e "Onde já li isto", onde a TV Guia se entretém a cascar forte e feio na concorrência. Na primeira a TV Guia analisa as notícias da concorrência e dispõe-se a confirmar ou a refutar essas notícias, embora naturalmente refute mais do que confirme. Mas a segunda é a minha preferida, a verdadeira pérola da revista. Na rubrica "Onde já li isto" a TV Guia confronta as datas de saída das notícias na sua própria revista e nas revistas da concorrência, deixando bem claro que a TV Guia foi a primeira a lançar a notícia, e que as outras, de certa forma, copiaram a notícia que tinha sido dada por ela, tudo isto com um tom de gozo e de desdém impressionantes:


O tom de sarcasmo, de ataque pessoal com que estas críticas à concorrência são feitas é tão sincero, tão libertador que eu imagino os empregados da TV Guia a revezarem-se para serem eles a escrever a rubrica em cada semana, com gritos de "Escolhe-me a mim! Esta semana sou eu! Já há uma data de semanas que não sou escolhido! Eu também quero escrever a rubrica!", e por fim a pular de alegria e excitação quando finalmente são escolhidos.

Apesar de tudo, há qualquer coisa que me faz desconfiar. Primeiro, a TV Guia nunca avisa quando são os outros a dar a notícia primeiro que eles. Será que eles são os primeiros de todas as vezes? E o que dizer do tempo que leva desde que a notícia é dada na TV Guia até que é dada noutra revista, que por vezes é de um, dois, três meses? Será que as outras revistas cometem mesmo o erro crasso de dar uma notícia três meses depois de esta surgir? Eu tenho outra teoria. Eu acho que a TV Guia inventa as notícias primeiro, e depois confirma se é mesmo verdade. Às vezes acerta. A coisa funciona mais ou menos assim:


Por vezes acontece ao contrário e as histórias até são verdadeiras e não são inventadas (OK, a maior parte del... metade d... algumas delas.). E nestas situações a TV Guia joga a sua carta de dentro da manga, que é simplesmente usar o facto de a TV Guia sair à Segunda e a Maria sair à Quarta (ou qualquer coisa do género, eu não compro as revistas, como é que querem que eu saiba?) para poder dizer que a segunda copiou pela primeira! Mais incrível ainda, chegam a acusar o DN de plágio por apresentar as notícias no mesmo dia da revista! Really????? Para quando um Onde Já Li Isto de um jornal que coloca as notícias no dia anterior ao da TV Guia, para o acusar de copiar, através de poderes psíquicos, as notícias no momento em que elas estão a ser escritas?

Por fim, o conteúdo. Vamos lá ver, a acusação de plágio seria grave e pertinente se a TV Guia tivesse sido a primeira a reportar um escândalo de pedofilia, ou uma mudança de mãos do comando de uma das principais televisões, ou simplesmente o próximo projecto de um actor. Mas o que nos aparece é: "Ai, nós fomos as primeiras a dizer que a Joana e o Eduardo se iam casar na novela das sete, perdão, da uma da manhã! A Maria só se lembrou disso dois meses depois!" Sim, e? Mesmo para as pessoas que vêem a novela, não é um bocado chato ter revistas a andar por aí a contar o final da história? E mesmo para quem gosta de saber o final, pelo menos a Maria tem timing, coloca a previsão uma semana antes do acontecimento, e assim não fica esquecida. "Ai que burras, só agora é que sabem que a Rita Pereira namora? Já há um mês que nós sabíamos que eles já moravam juntos!" Who cares? Porque é que não deixam mas é a Rita Pereira em paz e vão escrever sobre programas de televisão, sobre programas de televisão, que é o que uma revista chamada TV Guia devia fazer?

Não queria acabar sem mencionar o mais recente estado de tristeza e revolta de famosos como a Alexandra Lencastre, o Tony Carreira e a Luciana Abreu. Sentem-se desprezados, e não é para menos. Desde que a Casa dos Segredos arrancou na TVI, nunca mais foram vistos, pois não há uma capa da TV Guia desde o início do programa (já lá vão 10 semanas!) que não seja de um concorrente do mesmo. Cheira-me que vamos ter um processozinho colectivo...

26 outubro 2010

Quem quer ser capa da TV Guia? (Parte 1)

(o primeiro artigo deste blog que já se sabe à partida que vai ter uma segunda parte. Quem é amigo, quem é? Enjoy.)

Lembram-se de quando a TV Guia era assim?


Bons tempos, bons tempos, em que havia uma revista que nos dizia o que ia dar na TV. Pois. Agora, a TV Guia é assim:


Não sei em que ponto é que a TV Guia deixou de ser a revista de referência da programação da TV para passar a ser uma revista cor-de-rosa igual a tantas outras. A certa altura devem ter pensado "é pá, as revistas da concorrência ganham rios de dinheiro a contar as aventuras da Rita Pereira com o Angélico e nós aqui com entrevistas ao Tarcísio Meira!" e pimba! lá se passaram para o lado do cor-de-rosa (e sim, o "pimba" foi intencional). No entanto, não quiseram fazer uma simples passagem para o cor-de-rosa, quiseram fazer algo em estilo. Uns convites ao Carlos Castro e ao José Castelo Branco para comentar, o achincalhar das revistas da concorrência, a contratação de uma dúzia de amigos do casal que estão sempre prontos a contar os pormenores mais sórdidos das celebridades... enfim, mas quanto ao conteúdo deixo-o para a segunda parte. Desta vez quero falar de um pormenor com que a TV Guia levou o cor-de-rosa ao rubro, algo que foi afinado ao pormenor e que é sempre perfeitamente executado, semana após semana: as capas enganosas.

Antes de mais, voltemos ao título deste artigo: querem ser capa da TV Guia? É muito fácil, para ser capa da TV Guia, só é preciso ter uma destas quatro coisas:

  • Ser a Alexandra Lencastre, ou
  • Ser o Tony Carreira, ou
  • Ser a Rita Pereira ou a Luciana Abreu, ou
  • Ser famoso e estar envolvido numa espécie de escândalo que a ser escândalo nem seria assim grande coisa mas no final de contas nem sequer é verdade.
É impressionante o apreço que a TV Guia tem pela Alexandra Lencastre e pelo Tony Carreira, porque volta e meia lá aparecem eles outra vez na capa. Pelo menos uma vez em cada dois meses é garantida. A Rita Pereira é também uma celebridade emergente nesta revista: no mês de Junho, foi capa em três das quatro revistas que foram lançadas. Parecem ser aquelas pessoas que estão sempre lá e se vão buscar quando não há mais nada de especial no mundo cor-de-rosa... "Esta semana não se passa nada, o que é que se há-de fazer? - É pá, olha, mete-se a Alexandra Lencastre e diz-se que está deprimida."

Mas o que vem a ser isto das capas "enganosas"? É assim, não é que a TV Guia esteja propriamente a mentir na capa, mas digamos que... olhem, vou-vos dar um exemplo dos mais recentes:


Eh lá! A Júlia Pinheiro casou-se? Em segredo? Com quem? Então mas ela não era já casada? É pá, que escândalo, vou já comprar a revista para saber tudo!

E assim, depois de folhear a revista de uma ponta à outra e encontrar a história quase na última página, descobre-se afinal que quem se casou em segredo foi a enteada da Júlia. Mentiram na capa? Não! Ali só diz "Casamento em Segredo", não diz quem é que se casou!

Não sei quem tem as ideias para estas capas mas isto são golpes de génio. Incentiva-se o leitor a comprar a revista por um escândalo bombástico para o fazer depois descobrir que não há escândalo nenhum, e não é nada de especial. Mostro-vos outros exemplos a seguir:

As fans do Tony Carreira devem entrar em pânico com notícias destas. Oh meu Deus, o Tony Carreira doente, e agora como é que eu vou ver os concertos dele? Não se preocupem, as letras miudinhas da capa dizem que ele está arrasado mas a doença não é dele, é do seu amigo Ricardo Landum...


Pobre Mickael, um rapaz explorado pelo pai, que o obrigou a servir às mesas em Paris para que o filho soubesse o que custa a vida! Mas afinal... o emprego durou apenas duas semanas, e foi o próprio Mickael que quis ir trabalhar, o pai limitou-se a aceitar a decisão dele...


Cá está a nossa Júlia Pinheiro outra vez... Sozinha em férias? Coitada... Mas nas páginas interiores só aparecem fotos dela em férias com... o marido! Estranho, não percebi... o marido não é ninguém?!

Falando em férias, o nosso Tony também não está muito bem neste aspecto. Pai solteiro? Que aconteceu à mulher? Separado? Oh, o drama, o horror... O que vale é que é só por um mês, porque a mulher tem de ficar a trabalhar.

E por fim, não posso deixar de meter esta, que está espectacular. Tony Carreira Perde o Filho. Perde? Como? A mulher estava grávida e abortou? Um dos seus filhos morreu? Não, vai para Itália fazer de modelo e jogar futebol... Só me faz lembrar este sketch dos Gato Fedorento em que o gajo também tem um filho que lhe morreu...

Por fim, deixo só mais alguns de que me lembro mas que já não encontrei para colocar aqui. Uma delas, também com o Tony Carreira, dizia qualquer coisa como "Tony Carreira Sofre Por Doença", quando afinal era uma doença que ele já tinha tido, e pela qual já tinha sofrido, há 20 anos. A segunda já não me lembro de quem era, mas na capa estava escarrapachado "<celebridade> Fala Sobre A Sua Homossexualidade" para depois nas páginas interiores se ler "Não Sou Homossexual".

Nota: é possível que haja pessoas incomodadas pelo facto de eu falar apenas na TV Guia e não nas revistas da concorrência,  talvez até a própria TV Guia leve a mal o facto de eu não fazer o "contraditório" com os restantes magazines do cor-de-rosa. A esses respondo-lhes apenas que tem a TV Guia muita sorte por a minha mãe, mesmo assim, continuar a comprá-la, em vez de uma qualquer das outras.

24 agosto 2010

Ó Sr. Engenheiro, olhe que eu levo a mal...

Continuamos nas coisas particularmente irritantes, e desta vez quero falar daquelas pessoas que se chegam sempre à frente quando é para pagar a conta do jantar. Como diz o povo, isto só neste país. Nos Estados Unidos, por exemplo, é comum e perfeitamente aceitável dividir a conta a meias, cada um paga a sua parte e todos ficam contentes. Mas em Portugal não, porque alguma mente iluminada lembrou-se de lançar a moda de que fica bem oferecer-se para pagar a conta. 

Mostra riqueza, ostentação, coisas do género. Mas vejamos, se há dois milhões de pobres em Portugal, então há quatro quintos da população portuguesa que se podem dar ao luxo de pagar a conta de vez em quando. É alguma coisa de especial? Não, é banalíssimo! E aliás, mesmo dos dois milhões de pobres acredito que haja para aí um milhão que insiste em pagar a conta mesmo não podendo. Se isto é mostrar riqueza, não estaremos já todos ricos afinal?

OK talvez esteja a ser um bocado injusto com a maioria da população. Porque normalmente o acto de pagar a conta pressupõe um certo quid pro quo, desta vez pago eu, da próxima vez pagas tu. E enquanto correr assim, tenho que dar a mão à palmatória, por mim tudo bem, não tenho nada contra. Problema nº 1: ninguém realmente conta as vezes que cada um paga, e ai de quem contar porque fica logo mal visto. Problema nº 2: há certas pessoas que nunca contam e pagam sempre! Não estou propriamente a falar de pessoas que ganhem muito mais que eu (e mesmo se estivesse!), estou a falar de pessoas como eu e tu e toda a gente que tem o mínimo necessário para poder ler este blog. E com estas pessoas é impossível lidar: elas chegam-se sempre à frente, elas têm sempre o vocabulário na ponta da língua ("deixa estar", "já está tratado", "eu insisto", "eu faço questão", "ah, nem penses nisso", "guarda lá a carteira"), elas lançam charme para cima do empregado porque é sempre o dinheiro deles que ele aceita, nunca o nosso. E no fim, sorriem satisfeitos, olhando para nós que estamos cheios de vergonha e sentimentos de culpa, só faltando mesmo o riso maquiavélico no final: AH AH AH AH! CONSEGUI! MAIS UMA VEZ CONSEGUI! MAIS UMA EM QUE NÃO VOS DEIXO PAGAR A CONTA! AH! AH! AH! AH! AH!

Que raio de sociedade é esta que nos faz sentirmo-nos culpados por ficarmos com o dinheiro para nós? Se a outra pessoa se ofereceu para pagar de livre e espontânea vontade, porque nos sentimos mal com isso? Mas a sociedade é assim, e por isso temos que arranjar subterfúgios para conseguirmos pagar a conta à frente dos outros. Técnica nº 1: chamar o empregado e pagar sem que nenhum dos outros se tenha apercebido. Técnica nº 2: ser o primeiro a puxar da carteira, ter sempre dinheiro trocado à mão, ou então puxar logo de uma nota ou do cartão enquanto os outros procuram pelos trocos. Técnica nº 3, em último caso: tentar dar um argumento convincente, do tipo "na minha terra pago eu, quando estivermos na tua terra pagas tu", mas nem sempre funciona. E cuidado, há sempre algum risco em usar estas técnicas com as pessoas que pagam sempre, porque elas podem ficar visivelmente chateadas connosco.

Eu confesso, eu devo conseguir pagar a conta em 10% das vezes em que me vejo nesta situação. Não é que não me chegue à frente, mas ou não sou suficientemente rápido, ou não sou suficientemente convincente, e sobretudo porque não gosto de discussões ad aeternum do tipo "Ora essa, pago eu / Ora essa, deixe estar / Não, desta vez pago eu / Homem, deixe estar isso / Não não, eu insisto", por isso, se a pessoa insistir em pagar pela segunda vez, eu simplesmente... deixo-a. Sim, corro o risco de que comecem a olhar para mim de lado e a pensar "é pá, este gajo vem sempre comer connosco e nunca paga a conta...", mas estou de consciência tranquila, afinal o que querem que eu faça?

É que esta gente que se oferece sempre para pagar é particularmente irritante! Eu imagino o que aconteceria se duas dessas pessoas tivessem de partilhar um jantar...


Bónus: isto faz-me lembrar algumas memórias bem antigas, de quando eu tinha 7 ou 8 anos. As discussões que a minha avó tinha com as minhas tias-avós porque estas lhe queriam pagar não sei o quê e a minha avó não queria aceitar. Primeiro, elas punham o dinheiro nas mãos uma da outra, mas nenhuma delas o queria, aos gritos de "Toma lá! / Não quero nada disso! / Ó mulher, toma lá o dinheiro! / Não quero!". Depois, tentavam esconder a nota bem dobrada no bolso uma da outra, mas depois a outra descobria e era ela que ia tentar meter a nota no bolso da primeira. Por fim, as minhas tias olhavam para mim e para a minha irmã mais nova e davam-nos o dinheiro a nós, e eu diria que 1 em cada 4 vezes a minha avó ainda ia buscar o dinheiro e tentar devolver-lhes, mas a maior parte das vezes a coisa resultava, e eu e a minha irmã é que ganhávamos. $$$$$ :D

22 julho 2010

Não percebi...

Esta também vai para a categoria das coisas particularmente irritantes. Como coisa particularmente irritante, é muito grande para meter no Facebook, e terrivelmente enorme para o Twitter, por isso vai para o blog. Como artigo do blog, é no entanto pequenino, para não vos maçar muito.

Eu (acho que) devo ter um problema qualquer de audição, por isso isto acontece-me com alguma frequência:

- João, faz-me um favor, vai ao meu carro, abre o porta-luvas e traz-me o grpdhgl que lá deve estar.
- Trago o quê?
- Vais ao meu carro, levas a chave, abres o porta-luvas e deve lá estar o gfohijçdl, depois trazes-mo.
- Desculpa, não percebi.
- Ó homem, VAIS AO MEU CARRO, ABRes o porta-luvas e tiras de lá o gasdjasjg!!!!
- MAS TIRO O QUÊ????
- OS ÓCULOS!
- AAAAAHHHH!

Porque é que sempre que pedimos para repetir uma frase, repetem-na toda desde o início, quando é sempre a última parte da frase que não percebemos? Eu diria que em 95% das vezes que pedimos para repetir uma frase, é porque não percebemos a última ou uma das últimas palavras. Quase sempre, a mais importante, a que dá o contexto ao resto da frase. E no entanto, quando pedimos para repetir, repetem-na sempre toda desde o início, e quando chegam à parte que não percebemos, da qual estamos ansiosamente à espera, dizem-na exactamente da mesma maneira, de forma que não a percebemos novamente.

Reparem, se eu não percebesse o início da frase, interrompia-a logo no início. Se eu não percebesse o fim, mas a parte que não tivesse percebido não fosse importante, ignorava-a. A parte que peço para repetir é sempre a última, é sempre a mais importante. Da próxima vez, por favor façam antes isto.

- João, faz-me um favor, vai ao meu carro, abre o porta-luvas e traz-me o grpdhgl que lá deve estar.
- Trago o quê?
- Os óculos.

É difícil?

03 março 2010

Com certeza, sinhô.

Antes de começar este post quero fazer uma declaração de interesses. Não tenho nada contra os brasileiros (aliás até me estou a preparar para passar uma temporada com eles), nem contra a sub-secção destes que são empregados de mesa. Tanto quanto sei, são excelentes profissionais, e a cozinha brasileira é deliciosa, por isso para mim quantos mais melhor.

Posto isto, pergunto-vos: como se distingue um empregado de mesa português de um brasileiro? E não estou a falar do sotaque, esse é tão óbvio e natural que não conta, aliás nem sequer o vou tentar reproduzir aqui (excepção exceção feita ao título do post). Se, assim de repente, não se recordam de nada, continuem a ler. Imaginemos então que entro no restaurante:

Emp. PT: Boa noite.
Emp. BR: Boa noite, senhor.

Sentamo-nos e lá vem o empregado com a lista:

Emp. PT: Aqui têm a lista.
Emp. BR: Aqui têm a lista, senhores.

Depois de escolhermos o prato, lá vêm eles outra vez:

Emp. PT: Então, já escolheram?
Emp. BR: Já escolheram, senhores?
Eu: Ora, é um Bacalhau à Lagareiro, e uma Picanha na Brasa.
Emp. PT: Com certeza.
Emp. BR: Com certeza, senhor.

Trazem o vinho para provar:

Emp. PT: Ora aqui está o vinho.
Emp. BR: Aqui está o vinho, senhor.

Por fim, trazem a comida e servem-na e no fim desejam:

Emp. PT: Bom apetite.
Emp. BR: Bom apetite, senhores.

E no final, depois de pagarmos e ao sair:

Emp. PT: Tenha uma boa noite.
Emp. BR: Tenha uma boa noite, senhor.

Viram as diferenças? Não é gritante? Todos os empregados de mesa brasileiros acabam as suas frases com "senhor". Aliás, eu diria mesmo que os empregados de mesa brasileiros acabam todas as frases com "senhor"! Pronto, talvez todas não, mas pelo menos 80% das frases que são ditas terminam com "senhor". Eu cheguei a ver um empregado que dizia simplesmente "Senhor." ao servir o vinho a cada uma das pessoas. Deve haver muitos de vós que não tinham reparado neste pormenor, mas acreditem que depois de lerem isto, a próxima vez que virem um empregado de mesa brasileiro vão dar-me razão.

A minha pergunta é porquê? Claro que não deixa de ser um sinal de boa educação, mas um empregado de mesa português não diz "Senhor" depois de cada frase e não é por isso que deixa de ser educado. Não quero acreditar que é por excessiva subserviência ao povo português, afinal o tempo da colonização há muito que já lá vai, e além disso vocês são mais que nós.

Resta-me pensar que, uma vez que o português falado no Brasil troca o "tu" por "você" e o "você" por "o senhor", a linguagem dos empregados de mesa brasileiros deve ser uma forma de nos tratar por você. Mas, mais uma vez, para quê? Dizer "tenha uma boa noite" não é cordial o suficiente? É necessário tratar-nos por você quando se diz "aqui está o vinho"? E aliás, não é dos brasileiros a expressão "senhor não, o senhor está no céu"?

Se algum leitor brasileiro passar por aqui e souber a resposta a esta pergunta, deixe um comentário, por favor, senhor. Obrigado, senhor. Boa noite, senhor.

18 fevereiro 2010

Nha nha nha nha (ou como a voz de falsete pode influenciar uma história)

A voz de falsete. Desde sempre que convivemos com ela. Aliás, é uma das primeiras vozes que ouvimos, quando somos bebés. Cucu! Cucu! Eu tenho muito soninho, fiz cocó e a mamã mudou-me a fralda e agora tenho muito soninho. Quando somos bebés, toda a gente nos fala com voz de falsete, mesmo os que normalmente são os mais adultos, certinhos e responsáveis. Há dias ouvi a minha mãe falar com voz de falsete para a minha sobrinha de dois meses. Fiquei surpreendido e aterrorizado: era a primeira vez em 30 e poucos anos que ouvia aquele tom de voz a sair da minha mãe. Não fazia ideia que ela conseguia falar assim.

Com o tempo nós próprios vamos aprendendo o uso da voz de falsete. Primeiro de uma forma muito inocente, quando estamos a brincar. Eu sou o Homem Aranha e vou-te apanhar. Ou Olá, eu sou a Barbie, queres tomar chá comigo? Ou o simples mas eficaz Nha, nha nha nha, nha!. Mas é à medida que crescemos que nos apercebemos, inconscientemente, que a nossa voz de falsete se vai transformando numa arma poderosa. Como um Anakin Skywalker à espera de se tornar Darth Vader. A voz de falsete dá-nos um dos poderes ocultos do Lado Negro da Força: o de influenciar uma história a nosso favor.

Para o ilustrar preparei uma pequena história. Vou-me socorrer do itálico para transcrever a voz de falsete: seria bom que imaginassem a forma como soaria aos vossos ouvidos.

A Carolina zangou-se com a Sónia. Tinha-lhe pedido umas aulas emprestadas mas a Sónia não as quis emprestar. A Susana ouve, muito interessada, a história da Carolina:

- E eu cheguei ao pé dela e disse "Ouve lá, não te importas de me emprestar a aula de Matemática de ontem?". E ela, logo, toda histérica: "Porquê? Andaste na borga e faltaste à aula outra vez?"
- Que parva, tem alguma coisa a ver com o que tu andaste a fazer?
- E eu disse, "Não, tive de ir ao médico, e parece que a aula era importante, já que tu fazes os melhores apontamentos...".
- E faz, fica tudo muito explicadinho.
- Pois faz, até era um elogio que lhe estava a fazer. Mas vem-me aquela gaja e diz "Pois, foste ao médico, foste! Não te empresto nada, que é para aprenderes!"
- Olha, para aprenderes o quê, a não ir ao médico?
- Só se for isso... Eu disse-lhe logo "Olha, estás a ser injusta, quando tu precisaste da minha ajuda também te ajudei." E vem logo ela: "Ah, não me lembro de ter precisado de ti para alguma coisa..."
- Não se lembra... é mesmo parva! E que é que tu fizeste?
- Então, vim-me embora, adiantava alguma coisa estar a discutir com aquilo?

Entretanto, noutra parte do Mundo, a Sónia está a contar à Cláudia a mesma história:

- Eu vi logo que ela vinha com ela fisgada. E chega ao pé de mim e diz: "Ouve lá, não te importas de me emprestar a aula de Matemática de ontem?"
- Que descaramento, depois da borga onde ela andou ontem!
- Pois, eu bem sei, perguntei-lhe logo "Porquê? Andaste na borga e faltaste à aula outra vez, não foi?". E ela ficou fula. Depois disse "Ah, não, tive de ir ao médico".
- Bem, que desculpa mais esfarrapada!
- Depois começou a dar-me graxa, a dizer "Ah e tal, parece que a aula era importante, e que tu fazes os melhores apontamentos...". E eu disse-lhe "Pois, foste ao médico, foste... Olha, desta vez não te vou emprestar nada. É para tu aprenderes."
- Fizeste tu muito bem!
- Cala-te, que ela ficou zangadíssima! Começou a disparar, "Estás a ser injusta, estás a ser injusta! Quando precisaste da minha ajuda também te ajudei!"
- Ah ah, que piada! Alguma vez precisaste dela para alguma coisa?
- Foi o que eu lhe disse, muito calmamente: "Olha, não me lembro de ter precisado de ti para alguma coisa...".
- Boa, boa, e o que é que ela disse?
- Ela? Não disse mais nada, foi-se embora a resmungar...

Exercício:
1 - Quem é que acham que tem razão?
2 - Quem é que a Susana acha que tem razão?
3 - Quem é que a Cláudia acha que tem razão?
4 - Que é que aconteceu afinal?

Penso que começarão agora a perceber como a voz de falsete (em conjunto com o já famoso "quem conta um conto acrescenta um ponto") é uma arma poderosíssima. Ela tem o poder de menosprezar, de diminuir, de ridicularizar o testemunho da outra pessoa, fazendo, em contrapartida, valorizar o nosso. Dependendo do tom que imprimimos à nossa voz de falsete, a pessoa de quem se fala pode passar por comediante ou palhaça (o usual), por importante ou snob, ou por, pura e simplesmente, má. E reparem que isso acontece em qualquer um dos lados da história, por isso a verdade dos factos não é para aqui chamada. A voz de falsete efectivamente anula a verdade dos factos.

Nem é preciso falar de uma pessoa, a voz de falsete funciona com objectos, com eventos, com situações. Vejamos alguém que fala de um grupo de rock:

- Ei, Carla, já ouviste a última dos Drive Shaft? É muita porreira!
- Ó Sérgio, Drive Shaft? Que parolice! You all, everybody! You all, everybody! Achas que isso tem algum jeito?
- Bem, se pões as coisas nesses termos, acho que não...

Perguntam-me vocês: como combater a voz de falsete? A resposta é: não se pode. Estando alguém já influenciado no rumo da história através da voz de falsete, não há quaisquer factos ou argumentos que o façam mudar de opinião. O máximo que podem tentar é usar a voz de falsete a vosso favor, tanto a título preventivo como correctivo, mas cientes de que a prevenção é a melhor escolha. Agora que sabem o poder oculto da voz de falsete, poderão usá-lo mas com moderação, não cedam ao Lado Negro da Força.

E nunca, mas nunca, resistam à tentação de falar de vós próprios em voz de falsete, porque falar com esta vozinha irritante é muito estúpido, ficamos ridículos e perdemos toda a credibilidade.

A não ser, claro, que o façamos à frente de uma estante de livros.

13 janeiro 2010

7

7. Sete. Seven.


Nem sei como é que me deixo dizer mal do 7. Afinal, é o meu algarismo preferido (sim, eu sou um daqueles gajos estranhos que têm algarismos preferidos). E afinal, enquanto número e algarismo, é um tipo porreiro, porta-se sempre bem, não tenho nada a dizer. Sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete notas de música, sete pecados mortais, essas cenas. Portanto, como número e como algarismo, não há nada a lamentar. O meu problema é quando o 7 é usado como letra.


O pessoal lusófono acha piada a isto. Sempre que se fala do número Sete, substituir a letra T pelo número, então fica Se7e, o que é giro, porque o algarismo passa a in7ervir no seu próprio nome. A7enção, não posso falar só nos lusófonos porque os espanhóis 7ambém 7êm o seu Sie7e, os franceses 7êm o seu Sep7 e os i7alianos 7êm-no a duplicar, com o Se77e. Além disso, a linguagem l33t, usada por alguns maníacos da informá7ica e que consiste em 7rocar algumas ou mesmo 7odas as le7ras por outros símbolos equivalen7es, usa o se7e como subs7i7u7o para o T. Até aqui 7udo bem, afinal o 1 7ambém pode subs7i7uir o I ou o L, o 0 pode subs7i7uir o O, e por aí fora.

Mas o pessoal anglófono deve 7er achado que era pouco. Se os outros podiam subs7i7uir o 7 no próprio nome, eles 7ambém queriam. Então inven7aram isto:


O pessoal anglófono acha piada a isto. Sempre que se fala do número Seven, subs7i7uir a letra V pelo número, e então fica Se7en. Agora eu é que já não lhe 7ejo grande piada. Com um T a gente ainda faz um esforço para perceber, mas onde é que um V é parecido com um 7? A única coisa que 7ejo em comum é uma das pernas! Quem é que te7e esta ideia? Até a Microsof7 andou a brincar com isto, lá com o no7o sis7ema opera7i7o que eles 7êm agora, 7ejam só:


Desculpem, mas isto é abusar um bocado. Fazer uma perna a mais ao 7 para que se parecesse com um V  - ou en7ão uma perna a mais ao V para se parecer com um 7? É que acaba por não se parecer com nem um nem ou7ro, aquilo parece mais um 7riângulo in7er7ido onde apagaram um dos can7os. Não 7os parece um bocado rebuscado? Ha7ia necessidade de fazerem is7o?

É que não faz sen7ido nenhum fazer is7o, es7á bem que os ingleses e americanos são in7ejosos, se os ou7ros podem pôr um 7 no próprio nome eles 7ambém querem fazê-lo. Mas 7al7ez arranjando ou7ro número e ou7ro nome? Subs7i7uir o S por 6 em 6ix, por exemplo? 7ambém não é o ideal, mas é melhor que subs7i7uir um V por um 7. É que, se for assim, dá para subs7i7uir o 7 por qualquer le7ra, um F, por exemplo. 7inha algum jeito subs7i7uir F's por 7's?


Ó meus amigos, eu es7a7a a gozar. Is7o não era para ser le7ado a sério. Eu es7a7a aqui a ser per7ei7amen7e sarcás7ico e 7em-me es7e grupo de música (bem bom, por sinal) e chamam-se assim? Per7ume? Per7ume? Desculpem mas sempre que eu leio Per7ume digo PerTume. (porque PerVume já era uma aberração). É que um F 7em a perna exac7amen7e do lado oposto ao do 7. E esse 7racinho no meio 7oi mui7o bem pensado na 7o7ogra7ia mas no 7ex7o escri7o já não 7unciona, porque já quase nenhuma 7on7e 7em o 7racinho no 7. E agora, como é que is7o 7ica? Uma rebaldaria, é como 7ica.

Bem, se não os podes 7encer, jun7a-7e a eles, e 7amos 7er quan7as le7ras podemos ainda con7er7er ao 7. A primeira pode ser o Z, a7inal é apenas um 7 com mais uma perna. Além disso só aparece de 7e7 em quando, não de7e 7a7er mui7a con7usão. Um L, no 7undo é um 7 7irado ao con7rário, a7iás até fa7 mais sen7ido que o F, pe7o menos não 7em 7á o 7racinho a cha7ear. Um J, 7á agora, não é 7ão 7ácil de perceber mas é como uma imagem de um 7 ao espe7ho, de cima para baixo, rodada 7igeiramen7e. E por fim, um P, se mo 7ermi7em, digamos que é como um 7 com uma 7erna a mais, desde o to7o a7é à base do a7garismo.

E 7ron7o, agora 7odemos escre7er assim, 7odos con7en7es, 7orque 7odemos subs7i7uir 7odas es7as le7ras pe7o 7. Quan7as le7ras 7oram? Quan7as conseguimos? 7, ob7iamen7e, 7. A7inal é 7er7ei7o, o 7 é um número 7erdadeiramen7e es7ec7acular, não só consegue a7arecer no seu 7ró7rio nome, em 7árias 7ínguas, como consegue subs7i7uir um número de le7ras igual a si 7ró7rio! Experimen7em! É 7an7ás7ico! E mui7o di7er7ido! 7á, agora 7á chega, 7ol7em 7á ao que es7a7am a 7a7er, 7ol7em ao 7osso 7i7ro ou à 7ossa 77.

(es7ou a go7ar. 7or 7a7or, não 7açam is7o)




07 julho 2009

Chegar e não chegar (eis a questão?!)

Eu sinceramente nem sei por onde começar... ou não começar...

Toda a gente já ouviu isto. "Tenho de me ir embora, ainda tenho de ir para Lisboa hoje, chegar e não chegar são três horas e depois fica para tarde".

Aparentemente isto até se percebe, quer dizer que se demora mais ou menos três horas para ir daqui a Lisboa. Podiam dizer simplesmente "demoro três horas a lá chegar" ou "até lá chegar são três horas". Porque é que não dizem isso, então? Para que é que vem com a história do "chegar e não chegar"?

Vejo um senhor da terceira fila da assistência a torcer o nariz. Sim, mas se fosse só para chegar lá eram só duas horas e meia, não é a mesma coisa que chegar e não chegar. O senhor da segunda fila também concorda.

Aqui é que a coisa começa a complicar. Aparentemente, "não chegar" também demora um certo tempo. O que é que é "não chegar"? Partindo do princípio que sempre que caminhamos para o nosso destino estamos a chegar lá, de onde vem a parte do "não chegar"? Será que a certa altura andamos para trás? E outra coisa: a parte do "não chegar" vem antes ou depois do "chegar"? Será que primeiro se chega e depois não se chega ou é ao contrário? Imaginemos que já chegámos: podemos dizer "Não posso, já estou em Lisboa mas não chegar aqui ainda leva meia hora, temos de marcar para outro dia"?

Se calhar é ao contrário. Primeiro não chegamos, depois é que chegamos. OK, então primeiro demoramos meia hora a "não chegar", e depois lá vamos nós para Lisboa. Espera, então mas "não chegámos" ainda antes de partir? Então e "partir e não partir", será que também leva tempo? E onde é que deixamos de "não partir" e começamos a "não chegar"?

O homem da terceira fila começa a acusar agora algum nervosismo. Ó homem, para que é que está a complicar, isto é tão fácil! Imagine que vai daqui para Lisboa. De certeza que não vai directo, vai parar uma ou outra vez pelo caminho...

E não parar, acrescenta o da segunda fila.

Depois de chegar a Lisboa, ainda tem de chegar...

E não chegar, interrompe o da segunda fila.

... e não cheg... Tem que chegar ao seu destino, depois chega ao seu destino e tem de estacionar o carro...

E não estacionar...

E depois pegar nas malas e entrar em casa.

E não pegar, e não entrar.

Como vê não é só chegar e está feito. Todas estas coisas podem demorar o seu tempo.

E não demorar!, remata, satisfeito, o da segunda fila.

Bem, com esta explicação fiquei sem palavras. Alguém tem dúvidas? Porque se tiverem, estes dois senhores terão o maior prazer em vos esclarecer. E não esclarecer.

01 junho 2009

Será que é preciso chegar ao Verão para as facas cortarem manteiga?

No grupo das expressões que são particularmente irritantes encontra-se a expressão "facas a cortar manteiga". Parece algo muito inteligente mas no fundo trata-se de uma expressão completamente desprovida de personalidade, algo que serve para tudo mas no fundo não explica grande coisa. Ouvir a expressão "facas a cortar manteiga" como resposta a uma pergunta não me deixa com a sensação de que a pergunta foi respondida, deixa-me, pelo contrário, a pensar em mais uma dezena de perguntas que terei de fazer.

Em primeiro lugar, o próprio objecto da expressão é ambíguo. A expressão tanto pode servir para algo que corte facilmente ("esta faca corta a carne como se fosse manteiga", "esta carne corta-se como se fosse manteiga"), como para algo que não corte bem ("esta faca só corta manteiga"). Portanto logo aí a expressão suscita a dúvida: se as facas cortam bem manteiga, isso quer dizer que cortam bem ou que cortam mal?

Mas o problema principal não é esse. O problema é assumir que todas as facas cortam manteiga. Ou pelo menos que a cortam tão facilmente como se diz. Acham que é verdade? Vejo-vos envergonhados, recusando-se a admitir, mas no fundo todos sabem o que quero dizer: Nem Sempre as Facas Cortam Manteiga! E todos chegam a essa brilhante conclusão quando vem o Inverno e está um frio de rachar, ou quando alguém se esquece e deixa a manteiga no frigorífico. Aquilo é um bloco duro e maciço, cujos bocados que cortamos são sempre maiores do que o que queremos. Se um extraterrestre descesse à terra e visse este bloco de manteiga, dificilmente concluiria que era a coisa mais fácil de se cortar à faca.

Toda a gente sabe disto. Mas ninguém assume este erro crasso, e continua-se a dizer por aí que é fácil cortar manteiga. Os mais conscientes acabaram por inventar uma série de eufemismos para que o erro não se torne tão visível: "Parece uma faca quente a cortar manteiga". "Parece uma faca afiada a cortar manteiga". "Parece uma faca a cortar manteiga mole". "Esta faca corta manteiga no Verão". "Esta faca corta manteiga nos trópicos".

Com tantos acrescentos e modificações, não deveríamos começar a achar que o problema está mesmo na manteiga? Não se consegue arranjar mesmo nada mais fácil para cortar? Experimentem cortar pudim, ou gelatina, ou banana sem casca, ou farinha, ou molho bechamel! Qualquer uma destas coisas pode ser bem mais fácil de cortar do que manteiga. Acreditem que se alguém me dissesse que algo "parecia uma faca a cortar molho bechamel", eu ficaria perfeitamente esclarecido.

Tenham um pouco de bom senso, e ajudem-me a erradicar este mito urbano da história da humanidade. E a dar à manteiga, que não é tão fraca como dizem, o seu merecido respeito.