23 novembro 2010

Disponha ponha ponha ponha!

Apresento-vos o verbo dispor:

(latim dispono, -ere, pôr em diferentes lugares)
  v. tr.
  1. Pôr por ordem.
  2. Pôr em ordem.
  3. Ordenar, mandar.
  4. Resolver, preparar.
  5. Plantar.
  v. intr.
  6. Testar; ordenar em testamento.
  7. Ter à sua disposição.
  8. Ser o senhor.
  9. Regular por lei ou ordem.
  10. Prescrever o uso (que se há-de fazer de).
  11. Servir-se, utilizar-se.
  12. Deixar à disposição (de outrem).

Gostamos de dispor quando queremos dispor as fichas por ordem alfabética, dispor os livros na estante por autor, dispor os DVD's por ordem cronológica de realização do filme. Também gostamos de uma casa que dispõe de lareira e cozinha equipada, um carro que dispõe de ar condicionado, etc.

Gostamos de estar bem (embora às vezes fiquemos mal) dispostos, gostamos de estar dispostos a arriscar, gostamos de ter disposição para fazer as coisas que temos de fazer. Gostamos de estar à disposição dos outros, e gostamos de ter alguém à nossa disposição quando precisamos.

Tudo bem até agora? Então pergunto agora se gostamos de dispor. Dispor de quê? Dispor o quê? Dispor. Mas de quê? Não sei, de nada... Simplesmente, dispor.

Tipo, estás ali, numa boa, sentado a fumar um cigarro e a dispor. E chegam ao pé de ti e perguntam, "é pá, estás a dispor?" E tu, "é pá, estou." E eles, "é pá, vê lá, não disponhas muito, e tal" E tu, "ó pá vai-te lixar, eu disponho aquilo que eu quiser! Andor!" e coisas do género.

Faz sentido? Não? Não sei, deixo isso à vossa disposição. O que é certo é que acontece. Basta irem a uma loja de roupa e começarem a vasculhar, que aparece logo uma rapariguinha simpática que diz:

- Se precisar de alguma coisa, é só chamar.

Hã? Espera, não é isso que ela diz. O que ela diz é isto:

- Se precisar de alguma coisa, estou à sua disposição.

Aaa não, também não é bem isso. Isto é que ela diz:

- Se precisar de alguma coisa, disponha.

Pois, era mesmo isto.

Disponho o quê? As roupas por cor? Por tamanho? Disponho as roupas que pretendo em cima da mesa? Disponho os meus pedidos de ajuda ao balcão? Disponho num quadro branco as coisas de que preciso? Disponho o quê? Disponho de quê? De nada... simplesmente, disponho.

A menos que... a menos que o que ela quer dizer seja "Se precisar de alguma coisa, disponha de mim para aquilo que precisar". Mas isto não será abusar um bocado da rapariga? Coitada...

Bem... para alguma coisa meti a definição de dispor lá em cima. Deixa-me cá dispor as várias alternativas, eh eh. Saltamos os v. tr. porque esses não são de certeza (plantar?!). Ora vejamos... número 6: "Se precisar de alguma coisa, ordene-a em testamento". Não... Número 7: "Se precisar de alguma coisa, está à sua disposição". Mas não, não está à disposição, senão não precisava da rapariga... Número 8: "Se precisar de alguma coisa, você é o senhor". Bem, fico lisonjeado, mas lá voltamos à história dos abusos... Número 9: "Se precisar de alguma coisa, ponha-a por ordem". Mas como é que eu ordeno só uma coisa? Número 10: "Se precisar de alguma coisa, usa-a depois". Hã?!!! Número 11: "Se precisar de alguma coisa, sirva-se". Olha, que mal educada, então não vem ajudar-me? Enfim... Número 12: "Se precisar de alguma coisa, deixe-a à minha disposição". Hum, mas é suposto ela estar à minha disposição ou a coisa estar à disposição dela? Eu é que estou a ficar mal disposto...

Bem, para abreviar, depois de muito pensar no assunto acho que percebi. O que ela diz, na verdade, é "Se precisar de alguma coisa, diz "ponha"". Ah, e assim percebe-se! Claro! Faz todo o sentido! Portanto já sabem, se precisarem de ajuda numa loja é só começarem a gritar: PONHA! PONHA! POOOONNHAAA!

26 outubro 2010

Quem quer ser capa da TV Guia? (Parte 1)

(o primeiro artigo deste blog que já se sabe à partida que vai ter uma segunda parte. Quem é amigo, quem é? Enjoy.)

Lembram-se de quando a TV Guia era assim?


Bons tempos, bons tempos, em que havia uma revista que nos dizia o que ia dar na TV. Pois. Agora, a TV Guia é assim:


Não sei em que ponto é que a TV Guia deixou de ser a revista de referência da programação da TV para passar a ser uma revista cor-de-rosa igual a tantas outras. A certa altura devem ter pensado "é pá, as revistas da concorrência ganham rios de dinheiro a contar as aventuras da Rita Pereira com o Angélico e nós aqui com entrevistas ao Tarcísio Meira!" e pimba! lá se passaram para o lado do cor-de-rosa (e sim, o "pimba" foi intencional). No entanto, não quiseram fazer uma simples passagem para o cor-de-rosa, quiseram fazer algo em estilo. Uns convites ao Carlos Castro e ao José Castelo Branco para comentar, o achincalhar das revistas da concorrência, a contratação de uma dúzia de amigos do casal que estão sempre prontos a contar os pormenores mais sórdidos das celebridades... enfim, mas quanto ao conteúdo deixo-o para a segunda parte. Desta vez quero falar de um pormenor com que a TV Guia levou o cor-de-rosa ao rubro, algo que foi afinado ao pormenor e que é sempre perfeitamente executado, semana após semana: as capas enganosas.

Antes de mais, voltemos ao título deste artigo: querem ser capa da TV Guia? É muito fácil, para ser capa da TV Guia, só é preciso ter uma destas quatro coisas:

  • Ser a Alexandra Lencastre, ou
  • Ser o Tony Carreira, ou
  • Ser a Rita Pereira ou a Luciana Abreu, ou
  • Ser famoso e estar envolvido numa espécie de escândalo que a ser escândalo nem seria assim grande coisa mas no final de contas nem sequer é verdade.
É impressionante o apreço que a TV Guia tem pela Alexandra Lencastre e pelo Tony Carreira, porque volta e meia lá aparecem eles outra vez na capa. Pelo menos uma vez em cada dois meses é garantida. A Rita Pereira é também uma celebridade emergente nesta revista: no mês de Junho, foi capa em três das quatro revistas que foram lançadas. Parecem ser aquelas pessoas que estão sempre lá e se vão buscar quando não há mais nada de especial no mundo cor-de-rosa... "Esta semana não se passa nada, o que é que se há-de fazer? - É pá, olha, mete-se a Alexandra Lencastre e diz-se que está deprimida."

Mas o que vem a ser isto das capas "enganosas"? É assim, não é que a TV Guia esteja propriamente a mentir na capa, mas digamos que... olhem, vou-vos dar um exemplo dos mais recentes:


Eh lá! A Júlia Pinheiro casou-se? Em segredo? Com quem? Então mas ela não era já casada? É pá, que escândalo, vou já comprar a revista para saber tudo!

E assim, depois de folhear a revista de uma ponta à outra e encontrar a história quase na última página, descobre-se afinal que quem se casou em segredo foi a enteada da Júlia. Mentiram na capa? Não! Ali só diz "Casamento em Segredo", não diz quem é que se casou!

Não sei quem tem as ideias para estas capas mas isto são golpes de génio. Incentiva-se o leitor a comprar a revista por um escândalo bombástico para o fazer depois descobrir que não há escândalo nenhum, e não é nada de especial. Mostro-vos outros exemplos a seguir:

As fans do Tony Carreira devem entrar em pânico com notícias destas. Oh meu Deus, o Tony Carreira doente, e agora como é que eu vou ver os concertos dele? Não se preocupem, as letras miudinhas da capa dizem que ele está arrasado mas a doença não é dele, é do seu amigo Ricardo Landum...


Pobre Mickael, um rapaz explorado pelo pai, que o obrigou a servir às mesas em Paris para que o filho soubesse o que custa a vida! Mas afinal... o emprego durou apenas duas semanas, e foi o próprio Mickael que quis ir trabalhar, o pai limitou-se a aceitar a decisão dele...


Cá está a nossa Júlia Pinheiro outra vez... Sozinha em férias? Coitada... Mas nas páginas interiores só aparecem fotos dela em férias com... o marido! Estranho, não percebi... o marido não é ninguém?!

Falando em férias, o nosso Tony também não está muito bem neste aspecto. Pai solteiro? Que aconteceu à mulher? Separado? Oh, o drama, o horror... O que vale é que é só por um mês, porque a mulher tem de ficar a trabalhar.

E por fim, não posso deixar de meter esta, que está espectacular. Tony Carreira Perde o Filho. Perde? Como? A mulher estava grávida e abortou? Um dos seus filhos morreu? Não, vai para Itália fazer de modelo e jogar futebol... Só me faz lembrar este sketch dos Gato Fedorento em que o gajo também tem um filho que lhe morreu...

Por fim, deixo só mais alguns de que me lembro mas que já não encontrei para colocar aqui. Uma delas, também com o Tony Carreira, dizia qualquer coisa como "Tony Carreira Sofre Por Doença", quando afinal era uma doença que ele já tinha tido, e pela qual já tinha sofrido, há 20 anos. A segunda já não me lembro de quem era, mas na capa estava escarrapachado "<celebridade> Fala Sobre A Sua Homossexualidade" para depois nas páginas interiores se ler "Não Sou Homossexual".

Nota: é possível que haja pessoas incomodadas pelo facto de eu falar apenas na TV Guia e não nas revistas da concorrência,  talvez até a própria TV Guia leve a mal o facto de eu não fazer o "contraditório" com os restantes magazines do cor-de-rosa. A esses respondo-lhes apenas que tem a TV Guia muita sorte por a minha mãe, mesmo assim, continuar a comprá-la, em vez de uma qualquer das outras.

02 outubro 2010

Santinho não... santão!

Serei só eu que acho ridículo que se diga "Santinho" às pessoas adultas quando elas espirram? O que é que isto quer dizer? Ou melhor, porque é que o santo é tão pequenino, afinal? Porque, OK, percebe-se que se diga "Santinho" aos pequeninos, porque olhamos para a cara deles e (a maior parte das vezes) é mesmo isso que eles parecem. Agora a um adulto...

Penso que é claro que ao dizermos "Santinho" estamos efectivamente a chamar santinho à pessoa que espirrou, por isso é que dizemos Santinho aos homens e Santinha às mulheres. A alternativa seria estarmos a invocar um qualquer santo que fosse igual em género ao do nosso interlocutor, mas não me parece que assim seja, até porque talvez um homem preferisse que se invocasse uma santa e vice-versa (que diriam os homossexuais e os travestis?), que confusão que não seria. Portanto, admitindo que lhes estamos a chamar Santinhos, porque não lhes chamar Santos a partir do momento em que fazem 18 anos? Ou então Senhor Santo, a partir dos, sei lá, 40?

É um bocado parecido com o facto de dizermos "para o menino" quando cantamos os parabéns a uma pessoa adulta. Mas aí sabemos que o fazemos de forma consciente (aliás, aqueles que tentam "manter as aparências" e dizer "para o senhor" no meu entender ficam mais mal que bem). Há até quem seja apologista de que quem faz anos é "bebé" no dia do seu aniversário. Chamar "menino" a uma pessoa adulta, conscientemente, no dia do seu aniversário, é fazer-lhe um elogio, é fazê-lo voltar aos seus tempos de infância, e portanto, quanto a isso não tenho nada contra.

Mas o "Santinho" é involuntário, é uma expressão que proferimos quase por reflexo, sem pensar nas consequências dos nossos actos. "Santinho" era algo que os nossos pais nos diziam desde pequeninos, que ficou gravado na nossa mente e que continuamos a usar com toda a gente na falta de uma expressão melhor. Não temos nada do nível de um "Bless You!" anglo-saxónico (algo parecido com "Deus te abençoe" quando traduzido à letra). Aliás os próprios estrangeiros, ao aprender português (já para não falar dos lusófonos do Brasil) têm dificuldade em perceber a expressão "Santinho/Santinha", substituindo-a frequentemente por "Viva" ou "Saúde", alternativas que não convencem (ninguém aqui diz "Saúde" assim do nada, e "Viva" é mais uma forma de cumprimento) mas mesmo assim são mais dignas. Outros, já portugueses, têm as suas próprias alternativas, que no fundo expõem o ridículo da situação, casos, por exemplo, de "Diabinho" ou "Nunca fostes" (sic).

E depois há também casos em que, além de ridícula, a expressão é desconfortável ou mesmo injusta, quando nos apercebemos que estamos a chamar santinho a alguém de quem não gostamos ou mesmo que, na nossa opinião, é tudo menos um santo. Imaginem dois lutadores de boxe naquelas conferências de imprensa que antecedem o combate:

- Este senhor que tenha cuidado comigo, porque no combate vou dar cabo dele.
- Eu não tenho medo, pá, bates como uma menina!
- Bato o quê? Queres ver se queres levar já!
- Anda cá, menina, que eu não tenho medo!
- É pá, eu parto-te todo, eu dou cabo de ti!
- Anda cá, anda cáaaaa... atchim!
- Santinho.

Pensem bem nisto. Chamariam santinho ao colega que foi promovido não por trabalhar de forma exemplar, mas por passar o tempo a dar graxa ao patrão e a falar mal dos outros? Chamariam santinha à colega coscuvilheira, que sabe tudo da vossa vida, vá-se lá saber como, e não se inibe de a contar a quem quer que seja que lhe apareça pela frente? Então e aquele senhor com ar de cinquentão, cabelo grisalho e nariz abatatado, que nos pede sempre para fazer sacrifícios mas depois não cumpre o que prometeu? Que lhe diriam a ele quando espirrasse? Tem que haver uma outra expressão. Tem que haver uma alternativa.

16 setembro 2010

O computador não me deixa...

Digam o que disserem, a informatização da função pública foi uma bênção divina para a população em geral. O Sócrates pode ser um vigarista, um incompetente, ou mesmo um vigarista incompetente, mas dessa mente burra e conspurcada saiu a ideia do Simplex, que para muitos é a melhor coisinha que já lhes aconteceu.

A começar pelos próprios funcionários públicos (e aqui advirto que vou usar o estereótipo do funcionário público, admitindo no entanto que nem todos os funcionários públicos são assim - embora você, que é funcionário público e depois de ler este artigo o irá achar escandaloso e atentador do seu orgulho e dos seus direitos como funcionário público, esteja provavelmente inserido neste grupo). Para já a ideia de usar computadores leva logo à conclusão de que será necessário fazer menos, o que é sempre uma mais-valia. Depois, têm que gastar tempo em formações nos referidos computadores e respectivo software, tempo esse que assim não gastam a trabalhar e que no fundo é bem passado porque toda a gente sabe que nas formações não se passa nada. Mas o golpe de génio é que a informática veio dar aos funcionários públicos a melhor desculpa possível para serem mesmo mauzinhos e não ceder numa vírgula aos pedidos extraordinários dos seus clientes (ou contribuintes, ou cidadãos). A desculpa do "o computador não me deixa".

Imaginemos um caso prático. No centro de saúde, um senhor quer passar à frente dos outros porque "só vai pedir umas análises e tem que apanhar um avião ao meio dia". OK, não é grande exemplo, mas ficamos com este. Nos tempos em que não havia computadores, a secretária tinha que lhe dizer que isso não era justo para os outros doentes, que alguns deles também podiam querer só pedir análises (embora soubesse de antemão que nenhum deles queria), enfim, o homem não ia ficar satisfeito, ia haver discussão, a coisa só se resolvia por exaustão ou por cedência da secretária. Mas agora é tudo muito mais fácil para a secretária, basta ela fazer a cara mais inocente do mundo, e dizer "Olhe, se fosse por mim você até passava para a frente, mas o computador não me deixa...". O homem, incrédulo, perguntava "então e não pode fazer nada?" e ela virava o monitor para ele, com a lista de doentes e dizia "Está a ver? Só consigo acrescentar o seu nome aqui em baixo, não dá para o meter no meio. Isto está mesmo feito para não deixar ninguém passar à frente". E o pobre do doente desistia e ia-se embora a praguejar contra os facínoras dos informáticos.

Aliás vê-se nesta expressão como os funcionários públicos vêem a sério o seu trabalho. É curiosa a inclusão do me em "o computador não me deixa", como se o computador tivesse uma aversão especial em relação àquele funcionário, que não o deixasse fazer a operação porque era aquele funcionário e não outro qualquer.  Para o funcionário, é como se ele tivesse uma relação pessoal com aquele computador, que às vezes é teimoso e caprichoso e não o deixa fazer o que quer. Para nós, por outro lado, dá vontade de responder "então passe o computador ao seu colega, pode ser que o deixe a ele!".

Devo dizer também que isto não se aplica só a funcionários públicos. Já vi muitos funcionários de empresas privadas a dizer o mesmo. Mas talvez os funcionários públicos (e ressalvo novamente que estou a falar do estereótipo) tenham maior prazer em utilizar a desculpa da teimosia do computador. O que, apesar de tudo, é um mito. Sim, como programador de software de gestão, posso afirmar que a ideia generalizada do "o computador não me deixa" é falsa. Isto porque - e salvo as operações que são mesmo proibidas por lei - para cada operação que suscite a desculpa do "computador não me deixa" há quase sempre, no menu de opções avançadas, uma opção que diz, basicamente, "deixar fazer o que o cliente quer", ou até uma outra forma mais fácil de contornar a coisa. Se ao menos os funcionários estivessem mais atentos nas formações...

Por fim, não quero fechar este artigo sem deixar de referir o estado de evolução da informatização da função pública, que vai no sentido de tornar os próprios funcionários públicos em autómatos. Alguns já começam a conversão, através de outra expressão muita corrente nos dias de hoje, que é a expressão do "tem que tirar a senha":

- Bom dia, eu queria pagar esta factura...
- Primeiro tem que tirar a senha.
- Mas... não está aqui mais ninguém!
- Meu senhor, não o posso atender sem antes tirar a senha.
(vou para tirar a senha, mas entretanto outra pessoa chega e tira a senha primeiro que eu)
PIIII PIIII
- Cinquenta e quatro!
- Olhe, mas eu estava aqui primeiro que este senhor!
- Qual é o número da sua senha?
- É o cinquenta e cinco. Mas...
- Ainda vou no cinquenta e quatro. Tem que aguardar até chamar o seu número.

07 setembro 2010

A maior invenção de todos os tempos

Uma pergunta de algibeira: qual é a maior invenção de todos os tempos? Que é que me dizem? A roda? A electricidade? A Internet? O porta-banana?

Não, meus amigos, a maior invenção de todos os tempos é isto:


Os anglófonos chamam-lhe zipper. Nós preferimos ser finos como os franceses e chamar-lhe fecho éclair. Como invenção, o fecho éclair é genial. É como o ovo de Colombo elevado ao cubo (o conceito, não o ovo em si, embora deixe à vossa imaginação o que significaria esta frase em sentido literal).
Vendo-o bem de perto, parece algo muito complicado, com aqueles ganchos a entrelaçar-se uns nos outros (quem já não tentou entrelaçá-los manualmente, acabando por desfazer tudo novamente no processo?), mas aquela pecinha que corre entrelaça-os na perfeição com toda a facilidade. É um sistema altamente complexo, e no entanto, ridiculamente simples.

Usar roupa com fecho éclair é andar com uma peça da mais elevada tecnologia. Aquilo é rápido a abrir e a fechar, é fácil de usar e é tão resistente que nos perguntamos como é que aqueles dentinhos entrelaçados uns nos outros aguentam sem se desfazerem (a não ser que se estrague, o que, há que admiti-lo, acontece de vez em quando). Ter um casaco que se abre com fecho éclair é como ter uma daquelas portas que se abrem sozinhas como na nave Enterprise do Caminho das Estrelas. Uma mala de viagem fechada com fecho éclair é tão ou mais resistente como se tivesse sido soldada a laser, embora ainda mais rapidamente. É sem dúvida o objecto que mais se aproxima da perfeição, basta ver que o fecho éclair já existe desde 1913 na mesma forma como o vemos hoje.

É por isso que não entendo porque é que a certa altura do nosso desenvolvimento decidimos trocar isto:


Por isto:


Como é que é possível que tenham voltado a colocar botões no fecho das calças? Isto, meus amigos, é um retrocesso na nossa tecnologia! Para que é que, tendo algo tão tecnologicamente avançado como o fecho éclair, fomos andar para trás no tempo e voltar a colocar botões? É como se um belo dia um estilista acordasse e dissesse: Sabem o que é que era mesmo fixe? É que as televisões voltassem todas a ser a preto e branco! É pá, era tipo uma moda, a malta jovem ia gostar daquilo, ia ser uma loucura! E o pior é que isto entrou na moda de tal maneira que as calças com fecho éclair praticamente desapareceram. Ultimamente, sempre que entro numa loja de jeans peço calças com fecho éclair, para ouvir de todas as vezes que já não há, que já não existem. Ao menos que nos dessem a alternativa, não?

Qual é a vantagem de ter botões no fecho das calças? Aquilo demora que tempos para abotoar, e é uma chatice quando é para desabotoar e voltar a abotoar só os botões do meio e deixar o de cima. Depois, para facilitar, abrimos só dois ou três botões para termos um mínimo de espaço para pôr a coisa cá para fora, e depois, claro, ficamos com a coisa apertada, uma coisa desconfortável até dizer chega. Com o uso, as casas dos botões vão-se desgastando e o segundo botão de cima acaba por andar sempre desabotoado. Uma lástima. E imagino a vergonha que é recompormo-nos depois de nos dizerem que temos a braguilha aberta: com fecho éclair fazemos simplesmente: Eia, pá, pois, é... ziiiip... já está. Com botões: Eia, que cena, ora deixa cá ver, agora entra este, agora vai este, agora vai eeeeste... este não quer entrar... aaaahhh... já está... espera, abriu-se um... espera aí... está.

Um mundo que troca a alta tecnologia por uma coisa tão retrógada como um botão. Depois queixam-se que o país não anda para a frente. A sério que não percebo. Só se for por causa de situações como esta...